Disse o Sobreiro para a Esteva
Ás vezes dá-me para lamentar… o facto de ser assim grosseiro, pouco talhado para me mover tão perto de algo tão frágil e sensível como tu. Chegando por vezes a temer que com um pequeno gesto te magoe, faço a minha desajeitada dança em teu redor, com toda a pouca destreza que o meu corpo maciço permite, toda a atenção focada em ti , nos teus limites e nessas formas que me trazem a esta contradição…
Não sei o que será melhor para ambos? Por um lado quero ficar longe de ti e desse ponto contemplar todos os teus gestos, os de alegria, os de tristeza, os mais subtis espasmos… por outro lado sou afrontado pela necessidade de tocar tua pele e o teu cheiro…
E como tens feito por ignorar esta minha inquietude, ainda não percebi um sinal teu que me ajudasse a decidir; se subo para a montanha, aquele lugar a distância segura para ambos, que me tornará cada vez mais contorcido e fechado, moldado pela agreste exposição aos elementos, ou se fico a viver aqui contigo no vale, onde as minhas raízes te poderão envolver protegendo-te, ficando mais fortes com a riqueza da terra…
Mais tarde ou mais cedo acabarás por decidir por mim…
Esta é a minha natureza e sou hoje como sempre fui, porque infelizmente nem as mil vezes que amei me amaciaram a áspera casca. Sou macio no centro, onde não podes tocar, sou lento porque tenho por amigo o tempo, não sou muito inteligente porque nunca precisei de o ser, sou de maneiras rudes e lido com todos de forma simples e pouco polida, com os dedos grossos e toscos, não fui feito para tocar piano…

4 Comments:
Eu lamento ser flor campestre, sempre exposta ao sol, ao frio, a todas as intempéries. Susceptível de voar à primeira rajada de vento, não me agrada ser frágil.
Agradava-me a minha fragilidade se pudesse estabelecer uma simbiose com um castanheiro centenário, se pudesse permanecer protegida por ouriços espinhudos e uma folhagem densa.
Como já te disse, gostei muito da vida que deste a esse pedaço de barro, mas só agora tive tempo de ler... muito bonito, mas mostra uma inquietação grande... espero que resolvas isso dentro de ti... ah, e boa sorte para o combate de terça...e qd houver outro combate n te eskeças de avisar esta mana guerreira...
Terei que ler com tempo... para poder absorver... com tempo... temos que falar... e eu lancei um repto aos que, como eu, usam este meio para alargar horizontes...
Quanto ao Zaratustra... 14 anos é muito cedo, de facto, e talvez seja sempre cedo, a menos que haja irmanação essencial com Nietzsche como é - para o bem, para o mal , ou para além do bem e do mal ... - o meu! Eu uso o messenger... e não me custa nada adicionar-te... Fauno!
O Sobreiro e a Esteva, essa contradição das terras ásperas do Alentejo que, queimada e rude, aparentemente estéril e dura, de uma hora para a outra- assim parece, a nós, que não parámos o tempo suficiente para absorver o milagre da metamorfose - se enche de frágeis criaturas, tão estranhamente acetinadas e brancas que nos enchem de uma espécie de assombro! Transplantei uma para
aqui, sabias? E, paradoxalmente, ela, que resiste ao tempo seco lá, no seu terreno, e floresce sem exigências, aqui, ameaça secar se não lhe dou o privilégio da água e ainda não me presenteou com a flor!
Uma esteva para ti, Fauno! Terás que imaginá-la...
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